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O conceito de estranhamento na literatura, também chamado de afastamento, desfamiliarização ou desnaturalização, sempre foi muito discutido, tanto na teoria literária e crítica da cultura, quanto na filosofia e sociologia, o que fomentou a proliferação de diversas definições. Neste artigo vou comentar sobre alguns autores e críticos que o abordaram, demonstrar que existe um fio condutor para o pensamento em torno do estranhamento e esclarecer um pouco mais sobre esse recurso tão interessante.

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Nos tempos modernos, o poeta e crítico inglês Samuel T. Coleridge foi um dos primeiros a comentar a respeito do tema. Ele diz que a sensação de estranhamento criada por um texto literário tem a capacidade de despertar a mente do leitor para uma nova visão da realidade. No seu livro de ensaios Biographia Literaria (1817), ao analisar a obra do poeta Wordsworth, Coleridge afirma que suas poesias são capazes de produzir um sentimento análogo ao do sobrenatural e retirar “a película de familiaridade que nos cega para as maravilhas do mundo à nossa frente”[i].

Quase um século depois, em 1906, o psiquiatra Ernst Jentsch abordou essa problemática no ensaio “Zur Psychologie des Unheimlichen”[ii], no qual ele reflete sobre a sensação de inquietante estranheza que pode surgir repentinamente em qualquer pessoa, fazendo-a sentir uma desconfortável inconsistência em determinada situação. Jentsch relaciona esse sentimento com a dificuldade que muitos têm de aceitar aquilo que se apresenta como novo, fora das tradições, o que provoca reações de desconfiança, desconforto e até hostilidade. Porém, quando, por algum motivo, situações corriqueiras parecem tomadas por um aspecto diferente do usual, ao mesmo tempo sendo familiares e novas, um sentimento de incerteza e estranhamento surge, causando incômodo. Portanto, essa inquietante estranheza diz respeito a tudo o que é familiar, mas também estranho, sugerindo uma falta de orientação ou incerteza na percepção dos fatos[iii].

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Photo by Paweł Czerwiński on Unsplash

O texto de Jentsch ganhou notoriedade ao ser citado pelo psicanalista Sigmund Freud no ensaio “Das Unheimliche”, de 1919, no qual ele retoma e aprofunda a discussão a respeito da origem psicológica da sensação de inquietante estranheza. Para Freud, o Unheimlich “é aquela espécie de coisa assustadora que remonta ao que é há muito conhecido, ao bastante familiar”[iv].

Nesse sentido, há uma diferença entre o inquietante que é vivenciado em acontecimentos reais daquele que é imaginado por meio da literatura. O primeiro tem suas origens em complexos infantis reprimidos e outras questões psicológicas que vêm à tona sob determinadas circunstâncias. O segundo, em contrapartida, deriva da capacidade do escritor de “exacerbar e multiplicar o inquietante muito além do que é possível nas vivências, ao fazer sobrevir acontecimentos que jamais – ou muito raramente – encontramos na realidade”[v].

Freud entende que as narrativas que causam mais inquietação são aquelas que descrevem uma representação mimética da realidade abalada por acontecimentos aparentemente insólitos, os quais geram incertezas sobre as premissas do mundo ficcional. Quanto maior for o tempo dessa dúvida, mais intensa é a angústia produzida pelo estranhamento.

A visão freudiana sobre as narrativas inquietantes se aproxima do que o filósofo e linguista Tzvetan Todorov classificou como o gênero fantástico, que abrange narrativas nas quais em “um mundo que é bem o nosso, tal qual o conhecemos, sem diabos, nem sílfides nem vampiros, produz-se um acontecimento que não pode ser explicado pelas leis deste mundo familiar. […] O fantástico ocupa o tempo desta incerteza”[vi].

Todorov também foi responsável por revelar aos europeus a existência da escola dos formalistas russos, com a publicação do Théorie de la littérature: textes des formalistes russes, em 1965. Em um dos artigos dessa coletânea, Victor Chklóvski formula o conceito de Ostranenie, traduzido como estranhamento ou singularização. Chklóvski afirma que, “se examinarmos as leis gerais da percepção, veremos que, uma vez que se tornam habituais, as ações também se tornam automáticas. Assim, todos os nossos hábitos se refugiam num meio inconsciente e automático”[vii]. Esse automatismo, que remete à película de familiaridade de Coleridge, engole a própria vida, os objetos e ações, transformando-os em nada. A vida sob o automatismo inconsciente, então, é o mesmo que uma não-vida.

Os procedimentos de estranhamento, como vimos até aqui, também foram discutidos em relação ao teatro. O dramaturgo Bertold Brecht foi defensor de uma técnica que pudesse jogar luz às camadas mais profundas da realidade. Ele criou o conceito de efeito-V (Verfremdung), que pressupõe um afastamento capaz de ressaltar as articulações por trás das ilusões e mistificações da ideologia corrente.

Portanto, com Brecht o procedimento de estranhamento adquire um viés político, na expectativa de que o despertar de um novo olhar sobre a realidade seja ao mesmo tempo uma denúncia e uma motivação para transformações sociais. Essa perspectiva sobre o estranhamento não é divergente da visão freudiana e formalista, no sentido de trabalhar com aquilo que rompe com as familiaridades que encobrem a vida automatizada, mas Brecht vai além dos impulsos internos do sujeito ou mesmo do texto, apontando para uma compreensão da totalidade histórica e social.

 

[i] COLERIDGE, S. T. Biographia Literaria. Oxford: Project Gutemberg, 2004 (1817).

[ii] “Sobre a psicologia do inquietante” (tradução nossa). Diversas traduções ao português já foram propostas ao longo do tempo para o termo alemão Das Unheimliche, a partir do título do ensaio de Sigmund Freud: o estranho, a estranheza inquietante, o inquietante, o infamiliar etc.

[iii] JENTSCH, E. On the psychology of the uncanny (1906). Angelaki: Journal of the Theoretical Humanities, 2:1, 7-16, 2008.

[iv] FREUD, S. História de uma neurose infantil (“o homem dos lobos”), além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

[v] Ibid.

[vi] TODOROV, T. Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 2008.

[vii] CHKLÓVSKI, V. A arte como procedimento. In: TODOROV, T. Teoria da literatura: textos dos formalistas russos. São Paulo: Editora Unesp, 2013.

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